sexta-feira, 23 de agosto de 2013



Igual a ela 

Nunca ouvi uma palavra de afago de minha mãe .
Ouvia seus gritos e ritos .
Ouvia suas proibições , e sentia seus beliscões ,
certas vezes a odiava .
Mas depois passava...
Mulher austera
extremamente severa ,
por muitas vezes megera .
E até que , virei tambem , uma mamãe ,
exatamente igual como ela .
Sua palma minha alma , e hoje sei o quanto ela me amava ,
me ama .
E só foi isso que aprendi a fazer ...
Não digo eu te amo , grito quando não obedecem
meus ritos .
Proíbo e belisco ,
Sou por muitas e muitas vezes tambem odiada ,
tal e qual .
Em plenos tempos modernos sou austera , severa
e uma megera .
Mas há uma imagem que nunca apagarei de minha alma ,
minha mãe rezando e clamando a Deus , pelos treze filhos seus .
E eu não muito diferente dela ...
Proteja meus quatro filhos das mazelas do mundo , é somente isso que
clamo a Deus .
Se não digo eu te amo , perdão ,
porém vocês estão em minha oração .
E onde vocês estiverem não se esqueçam de mim .
Eu os amo desse jeito assim .

terça-feira, 20 de agosto de 2013



    • Nunca mais 


      E a noite tomou conta de meus sonhos ,
      veio fria e escuramente negra . 
      O vento era denso e carregado de 
      coisa nenhuma .
      As arvores agitavam-se e derrubavam os corvos
      que dormiam de olhos abertos .
      Ao longe cachorros ladravam .
      Ou seriam os ladrões que roubavam ?
      O som do sino na Matriz tornava
      tudo mais tenebroso .
      E o lampião da casa abandonada acendeu .
      Uma luz amarelada pela solidão tomou forma .
      O gato criatura da noite uivou como um
      lobo louco e sanguinário .
      E aquele som estridente e surdo ecoou
      gélido e sombrio
      E eu passeava em passos lentos
      e o meu vestido ao vento .
      E surge diante de mim aquele que
      sempre temi .
      E com o seu brilho opaco ofuscou
      o tempo , o tempo ...
      O tempo que fora nosso ,
      nosso inimigo e algoz ...
      E o céu revolveu-se em nuvens
      cheias de uma chuva fria .
      E a enxurrada nos afogou em sonhos
      de lágrimas nunca choradas .
      E aquela flauta doce tocava um som
      amargo .
      E eu que morro de dia no meio
      dos vivos .
      Vivo a noite no meio dos mortos
      cheios de vida .
      E em meus sonhos eu vou á terra do
      nunca mais .


      Adriana Noronha

domingo, 18 de agosto de 2013

Mundo meu 

As vezes ouço muitas vozes dizendo sempre o que devo fazer ou o que não devo ,
gente , pessoas , algaravia , confusão , 
e em meio a essa multidão que só fala , fala , fala .
Eu prefiro o barulho ensurdecedor dos meus pensamentos . 
Ai me perco na imensidão daquilo que acredito . 
Mesmo sabendo que só eu creio que o mundo é um lugar bom de se viver .
Mesmo que ele só exista ali dentro de mim , um mundo cheio de cores , 
flores mil , um lugar que em nenhum outro lugar, existiu .
Então corro livre em meus sonhos , e o céu não é vazio , 

e sim cheio de acordes de arpas delirantes , inebriantes , 
e o aroma de vida vem num vento cheio de esperança .
Em um dourado cavalo alado sigo rumo ao Sol , porém olho ao redor

e numa reviravolta louca vejo a lua , 
que me chama e clama dizendo que a vida é minha e sua .
E o sentido da vida invade por minhas estranhas entranhas , 

e na sensação que só meu coração pode sentir , 
eu acordo e vejo que meu mundo não é aqui .
Então mergulho no mar , 

purifico minh'alma e outra noite virá  
e ao meu mundo poderei retornar .

Adriana Noronha


Onde tu vais ?

Pensas que sabe voar !
Então tenta , vai tenta , voa 
voa ...
Não te faltas algo ?
Olha pra ti e não vês !
Tenta , voa , voa , voa ...
Para voar seriam necessárias duas ,
duas asas .
Não dois corações !
O meu e o teu não te fazem voar ,
não te levam aos céus .
Tens medo de quê ?
O mundo é pequeno pra ti ,
deita e dormes .
A asa que te faltas é a coragem ,
mates esse medo .
Vais ser livre , é , livre de mim ,
mas leves outra asa e voe sim .
Vá ao mais infinito dos céus , ultrapasse
as nuvens , alcance o teu universo .
Mas lembres que o Sol está lá a te espreitar
não caias no fogo dessa ilusão .
Voe , fly , flua , que o vento te levará ,
mas não esqueças , onde é o seu lugar .
Os anjos são bons , porém um deles sabe
enganar .
Enganar os tolos que ainda não aprenderam
a voar .
E ao precipício te empurrar .
Todos os anjos são lindamente iguais ,
mas o anjo mal esta lá .
Para voar são necessárias duas ,
duas assas .
Para poderes ir e voltar .


Adriana Noronha

quinta-feira, 8 de agosto de 2013




Antiga casa 

Um monstro gigantesco longo , forte , voraz , e cheio de vidas sem rumo , 
a procura de um rumo qualquer .
Veio numa velocidade descomunal e esmagou aquela antiga casa , 
aquela casa antiga .
E foram ruindo todos aqueles tijolos , telhas vermelhas e encardidas
de carmim .
O tempo carcomeu aquelas vidas que lá haviam , e outras vidas chegaram
mas eram medíocres vidas .
Hoje olho aquele lugar e posso vislumbrar os seres noturnos que espalhavam-se ao anoitecer , espalhavam-se entre os vivos .
Mas só eu os conseguia ver , um corpo esquelético de longos cabelos grisalhos e unhas afiadas e negras , de olhos sem luz .
Um cachorro de olhos de fogo , uma gia que piava , um gato negro que não miava , urrava , e o morcego com seu voo rasante !
O quintal possuía arvores que tinham mãos , folhas inebriantes e urticantes , seus frutos eram proibidos e amargos .
Porém havia uma luz ofuscante e dentro dela aquela que chamava-se Lídia , vovó ,
é vovó ...
E som dos tubos do orgão da igreja deixavam tudo fantasticamente pavoroso , escuro e assombroso , nem a Lua nem as estrelas se atreviam .
Essa era minha casa , minha imaginação , minha frustração de não ter tido um avô e uma avó que me contassem histórias de assombração .

Adriana Noronha

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Iemanjá

Sob o Sol do árido sertão o franzino menino , corria alegre e era feliz 
e naquela água barrenta , sua sede matou .
Porém ela o viu , encantou-se pelo franzino menino e em seus sonhos 
ela entrou .
E assim aquela água barrenta em mar transformou-se e como em ondas
gigantes ela o trouxe .
E o menino cresceu , em homem transformou-se , e com suas cores
seguiu pintando o mundo .
E perto da brisa do mar ela em desenho transformou-se , seu presente a
Iemanjá , era sua beleza retratar .
E ela dali daquele mar sempre esteve a lhe guardar .
E os ventos vieram e foram e voltaram até que ela permitiu , que
à sua Terra árida o menino franzino ...
Pudesse voltar .
E de novo pudesse nas águas barrentas sua sede matar .
Benvindo ao seu lugar .
Menino franzino que todas as cores soube , domar .


Adriana Noronha .

O que olhas tão longe ?
O espelho esta ai aos teus pés .
Mergulhes nele .
Pintastes a pedra , que de tão dura 
tornou-se tenra ao teu toque de luz .
Tua arte , tua vida , tua lida .
Tua lida flui .
Tua vida FLY .
Tua arte vai .
Vá longe .
Mas um dia volte pra mim .
Vai ,vai ...


Adriana Noronha