terça-feira, 17 de setembro de 2013

Nem você nem eu nem Deus

Não abra as gavetas de minh'alma ,
lá não encontrarás nada .
Por anos a fio , pensei que vivia , fluía
corria pelos campos alísios da vida .
Fui acumulando sonhos , arranhos ,
cicatrizes , feridas ...
Na gaveta do coração uma breve ilusão ,
nas gavetas do peito
derramou-se o leite
no estomago gosto amargo
de fel com azeite ,
naquela das estranhas ,
só há coisas estranhas .
E por aquela fechadura ,
que tentei não abrir ,
invadiu-me o bem e o mal ...
Basta , não venha
não vá lá ,
pois mais nada há de encontrar , e o que havia
nunca hei de te falar .
São apenas gavetas vazias , que um dia para
sempre vão se fechar .
Nem você , nem eu ,
nem Deus .

Adriana Noronha



Vagina 

Eu quero voltar pra casa .
Quero não ter nascido menina ,
talvez se eu fosse um rapaz , seria muito amado por minha 
doce mãe .
Doce ?
É doce mãe , ela adora os rebentos meninos ...
Puta que pariu !
Outra menina ...
E assim eu vim
Eu sou um manuscrito que ninguém consegue ler ,
decifra-me e te devorarei .
Pois nem eu mesma sei , o que sou , pra onde vou ,
no que a vida me transformou .
Minha alma esta jazendo , se consumindo , os longos cabelos
escondem minhas costas surradas , as minhas cicatrizes da vida .
Escondem o erro de eu ter nascido eu ,
poderia ser muitas outras coisas , mas só soube mesmo ser eu ,
não mudo , não melhoro , não renovo , não nada .
Alguém gritou ...
Largue de loucura ...
E acordei daquele transe ,
daquela hipnose , que me anula , em detrimento de outrem ,
e o trem veio e esmagou-me .
E agora vou ser o quê mesmo ?
Eu só sabia ser menina ,
eu não tenho falo .
Então diante de ti me calo , não Falo ...
E como menina nasci com vagina ,
imagina , pobre menina ...

Adriana Noronha

sábado, 14 de setembro de 2013

Lar doce lar

Eles nascem sadios
e crescem lindos .
Cobertos de muito cuidado e
proteção .
E vamos tirando dos seus caminhos
as pontiagudas pedras .
E assim o tempo vai , não volta ,
e vai mais à frente .
E de repente eles crescem e ao mundo
se vão .
E num sono profundo nós ficamos ,
ficamos sós .
E como um pressagio ruim , entram numa
péssima escola .
E lá aprendem o que eles nunca viram no
LAR DOCE LAR .
Jogam pedra na cruz .
E não sabemos quem os induz !
Suas vidas viram fumaça , e eles se reduzem
ao pó .
Mas desse mesmo pó surge a garra de lutar e tentar
seu rebento salvar .
E assim fez a PIETÁ ...
O colocou ao colo .
E da mesma forma para o meu colo eu vou te
buscar .


Adriana Noronha 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013


Batista 

O jovem rapaz cheio de sonhos e com a vida inteira à sua frente , no dia da Independência foi zanzar pelas ruas do Rio , e aquele dia prometia ... " 

"Calça nova de riscado 
Paletó de linho branco 
Que até o mês passado 
Lá no campo inda era flor
Sob o seu chapéu quebrado
Um sorriso ingênuo e franco
De um rapaz moço encantado
Com vinte anos de amor "

E lá se foi , pelas graças divinas o lotação quebrou , e do outro lados belas moças sob rígida vigilância da madre saíram para assistir o Manto Sagrado .
O rapaz chateado resolveu desistir do Baile , lá na rua do bispo , e foi a casa do Estudante , e lá Santa Luzia limpou suas vistas .
E para ele o céu se abriu , entre as moçoilas , uma sem igual , mais linda que aquela lá de Mônaco ou será Portugal ?
E seu coração nunca mais foi o mesmo , e os amigos a sorrir , e disser-lhe .
Aquela ?
Tá difícil ...
E o jovem rapaz falou : " vou casar com aquela ali "
Era um lobo apreciando as uvas .
E a persistência do rapaz amaciava o coração da bela jovem .
E ao som das serestas , seu amor a encantava , e em Paris foram passear .
De repente um noivado anunciado .
O casamento civil para garantir seu legado .
E o religioso para abençoa-los por todo o sempre amém .


Adriana Noronha 
Sexta feira 13

As lembranças da minha infância no quintal
do vovô Chiquim ...
Nos coqueiros , enormes morcegos alados de
vôos endiabrados .
O vento frio que furava qualquer alma viva ,
tornando-a loucamente doida .
A casa tinha um encanto de transformar belos
brinquedos em coisas hediondas .
Belas meninas repletas de candura em espíritos
cheios de feiura .
E os adultos que lá moravam eram como palhaços
tristes e vorazes .
E assim a vida ia
a vida corria pra longe ...
E aquele circo de horrores , me encantava todas
as noites ...
Embaixo das arvores grandiosas e escuras , seu
cheiro enebriava e adormecia .
E lá no alto um ser alvo , e calmo que me contava suas
estórias num silêncio absoluto .
E eu sempre o via todas as noites de minha feliz infância
no galho mais alto da azeitoneira .
Quem seria ?
Quem foi ?
Quem era ele ?
Ao sinal da primeira luz do dia ele sumia , e eu em minha
cama amanhecia .
E aquela árvore encantada pelo progresso foi derrubada .
E hoje , o procuro em meus sonhos , que quando criança
foram pura realidade .
Saudade de ti ...
Muita saudade .


Adriana Noronha 

terça-feira, 3 de setembro de 2013



Kamilla Mestre

De nada adiantam
paredes
largas
numa 
torre alta
e grades
de grosso ferro .
Esqueces que tenho alma
e que minha paz me acalma .
E mesmo nessa escuridão de fosso
posso voar , voar e
chegar ao mais
distante de mim .
E que só eu posso ir em
meus sonhos dantescos
e sem fim .
E mesmo no carcere posso
ser eu ,
eu sou , fui e serei fiel a
minh'alma .
Sou carcereira de meus sonhos
e posso
libertá-los além mar .
Talvez ir , sumir e quem sabe
tornar a voltar .


Adriana Noronha