domingo, 8 de janeiro de 2017
Panos de prato
Tudo estava calmo , o vento havia parado ,as arvores estáticas ,
e o calor queimava os arredores, a poeira passava ao longe, e nós ali confortavelmente unidos na sala , unidos pelo sangue , unidos na sala ...
E os cachorros ladram,ladram, ladram até nos chamar a atenção.
Alguém se levanta e vai ver o que é .
E porta adentro surge alguém .
Pulou a cerca ?
Pulei !
E ela só queria um lugar com gente .
E ela só queria conversar .
E ela chorou sua solidão .
E ela chorou seu abandono .
E eu só pude ouvi-la .
E eu só pude abraça-la .
E aquilo foi o bastante , lhe sorri , lhe sorri , e não enxuguei suas
lágrimas, a deixei chorar , deixei que ela jogasse fora o gosto salgado da sua solidão .
E assim acalmei seu impeto de sair sem rumo,sem direção, sair da própria vida,sair sem volta,sair de si,e não encontrar o que procura.
Acalmei seu surrado coração .
Que tal uma taça de vinho ?
Sentamos numa mesa cheia de tintas,pinceis, linhas de bordar, desenhos, papel carbono, uma máquina de custura, eu ouvindo suas histórias,enquanto pintava meus panos de prato .
E assim pintei mais um dia de minha vida,onde alguém queria apenas falar,falar e falar .
E dessa vez eu ouvi, ouvi e ouvi .
Aprendi ontem que precisamos também ouvir, justo eu, que falo mais que a mulher do leite .
Ouvi,ouvi o que realmente significa a palavra solidão ,e eu nunca, nunca mais vou deixá-la sem um simples bom dia .
Estarei sempre ali, só pra ouvir,ouvir, e ver sua solidão se esvair .
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Agouro
E eis que o seu rastro maligno,reaparece
apesar de banido para bem longe .
Aquela criatura rasteira,fétida e de conduta duvidosa,
deixa suas maldades explícitas, em rasgadas folhas.
E seus lacaios,ali espreitando aquela que não temeu
o mal, mas o enfrentou,o desafiou,desdenhou daquilo
que se imaginava gente .
Criatura rasteira,que outrora deva ter sido alguém,para
transformar-se apenas em algo,nada mais que algo.
Um algoz fraco, sem forças suficientes para vencer o
bem,fraco o suficiente para conquistar tisgas criaturas.
Seus maus olhos desmanchavam a candura,via apenas
carne,carne,carne...
Era voraz e podre.
Pobre homem de baixa estatura, nunca terá ou verá ou
alcançará a altura dos anjos celestes.
Tu não sabes pra que viestes...
Não serves
São vermes,
criatura rasteira,
no seu submundo imundo,
mergulhas dentro de tua nula e indecente existência.
E ela de longe corre livre,
e vive,
vive longe do teu mal agouro...
terça-feira, 6 de setembro de 2016
Apodrecido
É muito fácil morrer .
difícil mesmo é manter-se entre os vivos .
É muito fácil digladiar-se .
difícil mesmo é baixar a voz .
É muito fácil observar o outro
e dificílimo olhar-se no espelho .
O espelho mostra o quão somos
hediondos
egoístas
arrogantes
estúpidos
ignorantes
bossais
diabólicos
neuróticos
enganadores de si mesmos .
Assim como Narciso
amamos a imagem
daquilo que não somos
e nos afogamos
nessa paixão
pelo ser perfeito
que nunca
existiu
existe
existirá .
E a aguá cristalina reflete
a ilusão do ser
perfeitamente lindo por fora
e apodrecido por dentro .
difícil mesmo é manter-se entre os vivos .
É muito fácil digladiar-se .
difícil mesmo é baixar a voz .
É muito fácil observar o outro
e dificílimo olhar-se no espelho .
O espelho mostra o quão somos
hediondos
egoístas
arrogantes
estúpidos
ignorantes
bossais
diabólicos
neuróticos
enganadores de si mesmos .
Assim como Narciso
amamos a imagem
daquilo que não somos
e nos afogamos
nessa paixão
pelo ser perfeito
que nunca
existiu
existe
existirá .
E a aguá cristalina reflete
a ilusão do ser
perfeitamente lindo por fora
e apodrecido por dentro .
Língua
A pior guerra é aquela
travada por nós mesmos
A pior mácula é criada
por nós mesmos
Palavras ferinas
saem de nossas bocas
Desferimos sons e
ruídos tenebrosos
O sangue ferve
envenenando o corpo
O coração desmancha-se
em lavas incandescentes
Os outros são os outros ...
As nuvens escurecem
a alma
As águas turvas
afogam as emoções
Ouvimos só sons
de trovões
Grilhões ferem a
fraca carne fraca .
A alma é opaca
O pior punhal tem
uma forma
pontuda
tenra
e úmida
A língua
fere
esfola
degola .
E a vida se esvai
não flui .
E tudo se acaba
antes do fim .
Enfim somos apenas
aquilo que somos .
Somos o tudo
repleto de nada .
E o nada nos preenche
a nula existência divina .
Adriana Noronha
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Veinha da carimã
E ela passava bem cedinho pela rua ,com seu balde de alumínio que reluzia aos primeiros raios de Sol ,ornado de um pano alvinho , que mais parecia um pedaço das nuvens .
E a mamãe fazia um de nós ,ir ao portão atucalhar a veinha da carimã , cabelos longos presos a um cocó no alto de sua alva cabeça , corpo franzino , voz doce e de pouca sonoridade , uma alma tranquila que muito contribuiu para fortificar os filhos e filhas do Seu Brasil .
Tinha nome de flor , Flor Cecília ,
mas era mesmo conhecida como a veinha da carimã ...
E com suas mãos finas e enrugadas ,moldava os bolos da carimã alva e limpa , passava de uma mão para outra,
de uma mão para outra,
de uma mão para outra ,
num ritmo mágico e encantador , até formar as tão cobiçadas bolinhas de carimã .
Contava dez bolinhas generosamente espessas e lisas ,e recebia dez moedas ,e saia com um sorriso de grande satisfação ...
E assim foi por longos anos .
E o amanhecer era farto,
mingau de carimã ,
bolo de carimã ,
bolachinha de carimã,
café ,leite e a vida seguia ,fluía , e assim a gente vivia .
E de onde vinha a veinha da carimã ?
Que horas acordava ?
Teria filhos ?
Filhas ?
Até que um dia não veio mais ...
Para onde foi a Flor Cecília ?
Hoje me pergunto ...
Ele existia ?
Ou era somente ...
PURA MAGIA .
E a mamãe fazia um de nós ,ir ao portão atucalhar a veinha da carimã , cabelos longos presos a um cocó no alto de sua alva cabeça , corpo franzino , voz doce e de pouca sonoridade , uma alma tranquila que muito contribuiu para fortificar os filhos e filhas do Seu Brasil .
Tinha nome de flor , Flor Cecília ,
mas era mesmo conhecida como a veinha da carimã ...
E com suas mãos finas e enrugadas ,moldava os bolos da carimã alva e limpa , passava de uma mão para outra,
de uma mão para outra,
de uma mão para outra ,
num ritmo mágico e encantador , até formar as tão cobiçadas bolinhas de carimã .
Contava dez bolinhas generosamente espessas e lisas ,e recebia dez moedas ,e saia com um sorriso de grande satisfação ...
E assim foi por longos anos .
E o amanhecer era farto,
mingau de carimã ,
bolo de carimã ,
bolachinha de carimã,
café ,leite e a vida seguia ,fluía , e assim a gente vivia .
E de onde vinha a veinha da carimã ?
Que horas acordava ?
Teria filhos ?
Filhas ?
Até que um dia não veio mais ...
Para onde foi a Flor Cecília ?
Hoje me pergunto ...
Ele existia ?
Ou era somente ...
PURA MAGIA .
sábado, 6 de agosto de 2016
Fantasmas
Só quem viveu e ainda vive lá naquele encantado lugar
pode entender esses raios de vida .
Talvez sejam rastros daqueles que se foram, e que teimam
em voltar ,vez em quando .
Voltam em forma de brisa , ou como uma gota de orvalho
que mancha a branca camisa .
Ainda posso ouvir o barulho das crianças correndo e brincando,
a chuva no telhado escorregando
os cajus de tão maduros caindo,
a ventania agitando os altos coqueiros,
e da cozinha sentia aquele cheiro ,
cheiro de café quentinho
leite derramando
o carteiro chamando e a carta entregando,
as moças se enfeitando e encantando,
os rapazes de olho ,sempre espreitando,
a mamãe vigiando e espantando
papai ali, sempre calado, labutando,
e botando comida na mesa para aquele bando pueril.
E assim a vida fluiu
crescemos
e tudo sumiu...
E sobraram os encantados fantasmas que passeiam
de noite
e as vezes de dia,
procuram de novo aquela antiga harmonia.
Então, de noite, depois de viver minha real vida
durmo,
e em meus sonhos,
volto pra casa,
e vivo novamente
minha encantada vida .
Minha vida
encantada
vivo novamente ...
pode entender esses raios de vida .
Talvez sejam rastros daqueles que se foram, e que teimam
em voltar ,vez em quando .
Voltam em forma de brisa , ou como uma gota de orvalho
que mancha a branca camisa .
Ainda posso ouvir o barulho das crianças correndo e brincando,
a chuva no telhado escorregando
os cajus de tão maduros caindo,
a ventania agitando os altos coqueiros,
e da cozinha sentia aquele cheiro ,
cheiro de café quentinho
leite derramando
o carteiro chamando e a carta entregando,
as moças se enfeitando e encantando,
os rapazes de olho ,sempre espreitando,
a mamãe vigiando e espantando
papai ali, sempre calado, labutando,
e botando comida na mesa para aquele bando pueril.
E assim a vida fluiu
crescemos
e tudo sumiu...
E sobraram os encantados fantasmas que passeiam
de noite
e as vezes de dia,
procuram de novo aquela antiga harmonia.
Então, de noite, depois de viver minha real vida
durmo,
e em meus sonhos,
volto pra casa,
e vivo novamente
minha encantada vida .
Minha vida
encantada
vivo novamente ...
sexta-feira, 5 de agosto de 2016
Miserável ordinária cretina
Andava sempre nas nuvens ,
ouvia acordes vindo de harpas
sentia a brisa suave em seu rosto ,
enxergava o azul do firmamento celeste
conseguia ver passarem revoadas de garças ao
amanhecer procurando alimento
e voltava a vê-las ao entardecer procurando abrigo .
Então ela pensou :
Não sou desse Mundo !
Aí tudo se arrebentou e caiu no solo frio
da vida real .
Ouviu palavras ferinas ,
miserável
ordinária
cretina ...
Será mesmo que ouviu isso ?
Ou o inominável proferiu aquilo ?
E assim a vida é .
Real ...
E os rebentos ,vão
arrebentando tudo a sua frente ,
não são o que eram
viraram apenas gente
e gente é só gente
rente e quente
só gente
nunca filho da gente ...
E ela foi empurrada das nuvens
percebeu que só ouvia blasfêmias
sentiu o mormaço esmurrando seu rosto
enxergou o negro da noite eterna
a revoada era de abutres espreitando sua carne .
Então ela pensou :
Eu sou desse Mundo !
Sou
miserável
ordinária
cretina.
E assim seguirá com
o pesado
fardo de
sua sina .
ouvia acordes vindo de harpas
sentia a brisa suave em seu rosto ,
enxergava o azul do firmamento celeste
conseguia ver passarem revoadas de garças ao
amanhecer procurando alimento
e voltava a vê-las ao entardecer procurando abrigo .
Então ela pensou :
Não sou desse Mundo !
Aí tudo se arrebentou e caiu no solo frio
da vida real .
Ouviu palavras ferinas ,
miserável
ordinária
cretina ...
Será mesmo que ouviu isso ?
Ou o inominável proferiu aquilo ?
E assim a vida é .
Real ...
E os rebentos ,vão
arrebentando tudo a sua frente ,
não são o que eram
viraram apenas gente
e gente é só gente
rente e quente
só gente
nunca filho da gente ...
E ela foi empurrada das nuvens
percebeu que só ouvia blasfêmias
sentiu o mormaço esmurrando seu rosto
enxergou o negro da noite eterna
a revoada era de abutres espreitando sua carne .
Então ela pensou :
Eu sou desse Mundo !
Sou
miserável
ordinária
cretina.
E assim seguirá com
o pesado
fardo de
sua sina .
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