terça-feira, 14 de novembro de 2017

Castanha de caju


Lá no Benfica,
naquele pedaço de mundo encantado,
o dia amanhecia quente
e a meninada saia da rede
sorrateiramente .
Corria ao quintal e lá nos esperava,
o frondoso cajueiro,
pintado nas cores da felicidade .
O Locinha subia e balançava os galhos e derrubava os cajus ,
sem querer , mas querendo
em cima de nossas cabeças ...
E nos fartávamos de caju até inchar a barriga .
As castanhas eram nosso maior legado,
e na chapa de ferro,
viravam brasas gigantes,
incandescentes em nossa fogueira pueril,
mexia pra lá ,
mexia pra cá ,
o fogo pulava,
e a gente pulava na mesma cadência,
para se esquivar do óleo quente.
Saltita pra não se queimar .
Gritava o Locinha...
E dançávamos ao redor do fogo,
antes da degustação.
Castanha assada, areia nela ...
E assim nossa vida fluía,
e a criançada ficava,
toda emborralhada,
por causa da castanha queimada .
Mãos pretas ,
caras pretas ,
dentes pretos
e nossa vida muito ,
muito colorida .
Lá no Benfica,
naquele pedaço,
de mundo,
encantado...
Adriana Noronha

terça-feira, 7 de novembro de 2017

"Tudo outra vez"
Eu vi a minha casa no chão, a casa em que cresci , cheguei tarde e não deu tempo de pegar um pedaço sequer do reboco ou um caco de telha ela ruiu,não achei nada mais não.
Onde ficaram as panelas ,
as cadeiras ,o baú , 
os livros e a nossa Enciclopédia,
e as minhas bonecas de pano ,
a lata da farinha, do feijão ,
o fogão,
e a mesa gigante onde a mamãe nos serviu o leite e o pão ,
o pé de jambo ,
o cajueiro,
os pés de coqueiros que sustentavam as roupas no nosso imenso varal ?
Meu Deus, cadê eu e meus irmãos !
Senti um calafrio e calei , mas queria mesmo era gritar,berrar.
Então só fiz chorar, e minha ausência lamentar.
Um algoz chamado progresso engoliu vorazmente um micro mundo em beneficio do mundo macro .
Mas posso reconstruir tudo outra vez ,
a algaravia e as arengas da meninada,
o cheiro delicioso que vinha da cozinha,
os latidos misturados aos miados ,
ouvir Can't take my eyes off you na radiola,
ver o florescer das papoulas,
subir e arrancar as frutas das arvores ,
ouvir o som do sino da igreja .
As brincadeiras de roda ,
as estórias de terror contadas no escuro do quintal ,
a vela acesa dentro da lata ,
o balanço no cajueiro indo e vindo ,
o coral do ronco de todos a dormir ,
o terço gigante pendurado na parede ,
o presépio, a arvore enfeitada com algodão.
E o melhor de tudo andar pela nossa casa de paredes alvas e cheias de desenhos infantis pueris ,
,roubar as garrafas de cajuína que curtiam no telhado,
entrar pelas portas sem ferrolhos pois nada ficava trancado.
Eu fecho os olhos e colho tudo de bom que lá existiu ,
felicidade assim nunca se viu ,
minha vida não se perdeu e tudo que vivi foi o que valeu ,
eu começaria tudo outra vez ...
Adriana Noronha .

segunda-feira, 30 de outubro de 2017



Vestida de Maria


Foi uma vez num sonho que:
Certo dia me vesti de Maria.
Naquele tão famoso vestido de mescla azul, de debrun preto e botões forrados, pela primogênita confeccionado...
Sorrateiramente o roubei, do fundo daquele guarda roupas antigo,do antigo guarda roupas.
Me despi de mim.
E quis ser aquela, a mãe megera.
Senti no ar seu perfume de talco, misturado ao sabonete Viol,aquele da caixinha de madeira!
Procurei ser como ela, de toda maneira.
E saí a caminhar em passos pesados pelo quintal encantado, passos pesados da vida dura, impura,imatura.
O céu escureceu, a Lua não apareceu, o som emudeceu, o tempo cessou, a luz apagou, meu coração chorou ...
A sua vara me apoiou, consegui chegar onde nunca pude estar,
lá no meu antigo lar.
lar longe de mim,
lar pra que te quero .
Não ouvi sua voz,
descobri que agora seu corpo agora jaz.
E de novo acordei no mundo dos mortos vivos, e fui capengando até meu mundo escondido.
E naquele dia que me vesti de Maria,
descobri que sou órfã de pai e principalmente de mãe, órfã de irmão e órfã de irmãs, órfã de filhos e filhas, apenas órfã.
No mundo sem uma mãe, nada possuímos, por mais ruim que ela fosse,ou por mais ruim que eu seja,vou viver sempre nessa peleja.
De deitar, tentar sonhar, e de novo ver a Maria.
E se algum dia, em outra esfera da vida, te reencontrar, deixa eu te amar, amar além da vida, além de mim , te amar além da lenda, de pensar que pude um dia te odiar.
Deixar eu apenas pensar que um dia talvez eu volte a te contemplar...
Mas enquanto isso ,vou me vestindo de Maria,naquele tão famoso vestido de mescla azul,de debrun preto e botões forrados,pela primogênita confeccionado .
Nada mais existe naquele quintal encantado, o desencanto chegou lá, e se por acaso eu morrer, pode me enterrar em qualquer lugar.
Que pra casa saberei voltar .

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Ignorância


Tenho um lado claro
porém o outro obscuro...
A luz que me ilumina
me divide e assim me elimina.
Sou eu louco, ou o meu eterno vazio me deixa oco ?
Essa parte escura de mim
me mostra outro lado sem fim.
Tenho um olho que tudo vê,
e outro que nada quer enxergar.
De um lado tenho alma
do outro, um vazio coração.
Sou dois, ou será que ninguém sou ?
E a noite vem
engolindo o Sol...
A Lua invade meu lado vazio
e lá nada encontra.
De novo acordo
foi tudo um sonho.
Me sinto medonho,
mas é só um sonho...
O dia amanhece
acordo do transe, e assim
vou desfrutar da minha ignorância...
Mas de novo a noite vem engolindo o Sol
e eu vou
ver meu lado claro
e o outro lado obscuro.
De noite divido
em dois
De dia vou vivendo na minha
feliz ignorância ...
Na minha ignorância feliz .
Foto de Interpretando.

sábado, 9 de setembro de 2017




O que é o esquecimento ? 
Onde ficam guardados nossos lamentos ? 
O vento vem, o vento vai , me leva pra longe, 
depois aos mesmos lugares me traz . 
Por um momento eu penso 
que você ainda pensa em mim. 
E as vezes penso que nem eu mesmo sei 
qual é o meu fim . 
O tempo é dono do tempo eu me lembro, 
e ás vezes quero esquecer. 
Sou feliz por poder envelhecer, 
e sei que mesmo não sabendo,
não esqueço de você. 
Em algum lugar, daquele espaço que chamo de mente, 
você não está ausente. 
O presente foi você que esteve no meu passado,
sempre ao meu lado, 
eu ao teu lado vou estar ,
mesmo que não consiga lembrar. 
E se eu não lembrar, você vai estar lá a me recordar .

sábado, 19 de agosto de 2017

O Sol brilhar


As trombetas soaram aquele som estridente,deprimente,
que a gente não quer ouvir...
Mas a inevitável vida,falida,sofrida,vivida à duras penas,
a inevitável vida parece ter fim.
E o Sol escurece,e no crepúsculo seus raios ficam rubros,e densamente fúnebres.
E a morte vem de novo,com sua sombra sorrateira na soleira da casa ao lado.
E o fardo da dor que não se mede, e que se repete ao longo da árdua vida.
Olho ao redor,as pessoas cálidas,pálidas,caladas dentro de seus pecados obscuros e escondidos.
Diante da morte,não adianta posses e sorte,não adianta adiantar o passo,pois ela vem e faz o descompasso.
E assim seguem aqueles que pensam, que nunca morrerão.
Estamos realmente vivos ?
Ou apenas dormindo ?
Se além da morte for pior que isso aqui,me deixa viver mais um pouco,
deixa eu ficar no mundo dos tolos ou dos loucos.
Que as trombetas silenciem, fiquem esquecidas, e que eu não ouça o canto dos anjos, não agora,não é hora.
Deixa eu ver as auroras
o revoar
o Sol brilhar,
a Lua encantar,
a criança brincar
a flor brotar
o rio fluir
o sorriso se abrir
e a vida de novo fluir .