quarta-feira, 24 de agosto de 2022

     Abri os olhos naquela manhã lânguida e imediatamente vi o sol,em todo seu resplendor.

Mas de repente, me vi também ali olhando os meus pés, e eu não estava deitada, estava diante de mim, ali, é ali e eu aqui.
Vixe !
me aproximei, com receio, tatiei, apalpei, apertei e belisquei.
Vala-me São francisco...
Eu não acordei.
Estava ali jazendo.
Oxe ! Ainda não era a hora, a tão não esperada hora mortis.
Mas pensei que poderia estar no lucro, eu ia encontrar a mamãe, o papai, reencontraria o primogênito, o irmão que foi ceifado, eitha ia conhecer o outro Reginaldo que morreu antes de eu nascer e todos os outros agregados na minha vida lá na terra.
Meu Jesus, ainda estou em minha alcova, não fui ainda pra cova, aquela de sete palmos, eu viva na do leões.
Ei ! Tu mora no nordeste. Ai é !
Então eu vivia na cova cheia de caititús.
De repente ouço Vivaldi.
Vivaldi ? Sim aquele das quatro estações...
Mas um vento passou e a música mudou, veio um som grave, opaco, cheio de tambores gigantes.
A Carmina. É, a Umburana !
Eu tava falando com quem ?
Com você mesmo, com a tua consciência, que está cheia de resposta sem perguntas, cheia de perdões sem erros, cheia de coragem sem medos, cheia de rancores herdados, e repleta de desejos ocultos não realizados.
Você não pode entregar meus podres, tu sou eu, ou eu sou tu.
Tu, tu, tu ,tudo é tu, e o eu ?
Alguém lá na triagem das portas de cima e de baixo, viu minha conversa, comigo mesma, e ficou encabulado, observando minha longa conversa comigo.
Essa vai dar trabalho, fala demais, é muito indagueira, e hoje tô afim de paz, silencio, mansidão, hoje me inspirei no funcionário público, ele existe mas nada faz.
E a Compadecida vinha passando, me olhou e disse.
Mande de volta, ela reza sempre pra mim, sempre me clama, ainda é uma menina pressa num corpo adulto, tadinha, e teve a ousadia de sonhar comigo.
Exatamente, eu tive que ir no sonho dela e ficar conversando horas a fio, nós duas sentadas numa pedra falando de coisas da vida, ela realmente gosta de mim.
E assim foi feito.
Eu acordei de mais um sonho, e tive a oportunidade de continuar sonhando acordada, no dia que vou de novo transcender e estar conversando com a Imaculada.
O trem apitou eu pro meu corpo voltou, e vou seguindo, e vivendo nessa cova cheia de caititús.
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Raquel Noronha, Sara Mota e 5 outras pessoas
ova de Caititús

terça-feira, 26 de julho de 2022

Gatixa, a lagartixa  


Um dia a lagartixa, entediada com sua pacata vida, naquela casa de paredes caiadas, resolveu descer para dar uma volta nos arredores.

Afinal ela sempre estava passeando nas paredes, pra lá e pra cá, sempre perto das telhas. 

Ela estava cansada de brincar com sua sobra, que se agigantava quando passava perto do candeeiro.

Saiu num dia ensolarado, passou pelo jardim, foi indo, indo, e atravessou a cerca.

Tu vai aonde ? 

Perguntou o morceguinho. Vou passear.

Cuidado ! Tu é lagartixa de parede. 

Eu sei !

E lá se foi ela.

Passeando pela vereda, viu uma flor e se encantou, sentiu o cheiro do manjericão, que sensação, e foi indo, indo.

De repente atravessa a vereda uma cascavel...

Bom dia. Falou a lagartixa 

Tá falando comigo ?

Nossa que pele linda a sua, parece uma armadura, que desenho lindo.

Essa não é certa da bola. Pensou a cobra.

Tu sabe com quem está falando ?

Sei não ! 

Mas deixa eu me apresentar.  

Sou Gatixa, a lagartixa de parede.

E você ?

Sou somente uma cascavel,  a responsável pela morte de todo mundo.

Viuge ! 

Isso é fofoca né ?

Eu gostei de você, adorei esse chocalho na sua calda, é o máximo. 

O que você faz da vida ?

Mato gente !

Adorei teu senso de humor.

Hoje não tô num dia bom. Retrucou a cascavel. 

Então abra seu coração, me conte a sua história.

Eu sou a culpada da morte de todos por aqui, se morre um bode, sou eu, uma vaca sou eu, um caititu, sou eu, um tabaréu sou eu a culpada.

Criatura deixe de besteira, isso é intriga dos invejosos, achei você tão tranquila, liga pra isso não.

Você não sabe metade da missa.

Pronto vou te provar que tudo é culpa minha.

Vamos esperar passar um tabaréu por aqui, quando ele se aproximar,  você morde a canela dele, e se esconde, e eu apareço.

Tá bom !  

Fique ligada.

E lá vem o  tabaréu, tranquilo para mais um dia de trabalho na roça.

A gatixa mais que depressa ,mordeu o calcanhar do homem, correu, se escondeu, e a cobra apareceu...

Meus Jesus ! E o tabaréu caiu morto em cima da cobra.

Viu ! Num te falei ! 

Calma amiga, foi coincidência.

Então tá, vamos inverter, vamos esperar outro tabaréu,  eu vou morder, me escondo e você aparece. 

Tá bom !  Falou a Gatixa.

E lá vem pela vereda outro tabaréu.

A cascavel veio sorrateira, mordeu a canela do homem, se escondeu rapidamente, e a lagartixa apareceu.

Peste, praga, quer me matar de susto, pensei que fosse uma cascavel. 

Chutou a lagartixa pra longe, e continuou o seu caminho.

Viu aí ! 

O cara foi embora, eu mordi, mas ele viu foi você, e  não morreu.

E assim começou uma longa amizade entre a cascavel e a lagartixa de parede.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

 You can always come home

O tempo nos faz crescer.
o vento nos empurra para longe, espalha as folhas de uma frondosa arvore por ai, por ali, acolá, eu fui parar onde não tem mar, mas a lua que nos iluminava e o sol que nos aquecia, me consolam...
E a nossa casa não se desmancha em nossa mente, mesmo que um monstro chamado progresso a tenha derrubado sem piedade, sem ouvir nossos gritos pueris.
Então quando a noite vem, deito na alcova e adormeço, saio do mundo dos adultos e volto para minha casa, meu pai, minha megera mãe, meus irmãos, minhas irmãs, minha bicicleta, minhas bonecas.
E retorno ao mágico quintal, herança do avô paterno, que apesar de morto, nunca saiu de lá, estava sempre a nos assombrar, com sua alma que se recusava a ir, para não sei onde.
E em meus sonhos sempre há alguém a minha espera, a me acolher num longo e terno abraço, um abraço aconchegante e quente, e olho ao redor, está tudo como era, foi, será...
E aquela criança será feliz de novo por encantados instantes, o cheiro dos cajús, o aroma do café, a fumaça provocada pelo eletrodo encostando no ferro, as bicicletas Barra Forte, os gritos da menina a correr na hora do banho, a biblioteca própria repleta de tudo, o violão, os beliches, o baú das redes.
Nós juntos sem ódios ou rancores, só fraternidade, irmandade, confraria, brincadeiras e alegria.
Em meus sonhos sempre pulo o muro, ainda tenho pernas fortes e robustas, e sempre há quem me apare, me abrace me pegue pela mão, e me leve ao meu mundo real.
Tu tava aonde menina ?
Não sei !
Tã na hora do banho, pentear esse cabelo, colocar o laço de fita, pra ficar uma menina bonita.
E assim eu volto a viver.
Você sempre pode voltar para casa.
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domingo, 5 de setembro de 2021

 Quando tinha apenas cinco anos,lembro do comboio de irmãos indo para a pré escola, guiados pelo irmão seminarista, nossa fardinha azul, com camisa de anaruga quadriculadinha linda, seguíamos á pé, pela avenida da Universidade, e dobrávamos na Treze de Maio, o quarteirão da Reitoria, a concha acústica, a praça da Gentilândia, a Escola Técnica Federal, e o 23º BC, passávamos pelo seu imenso portão, o primogênito já estava lá dentro, era 3º Sargento de infantaria, o bom moço.

Nossa escolinha ficava dentro daquele quartel, ali estavámos protegidos, de quê ainda não sabíamos, mas estavámos seguros, a escola tinha guarita com soldados armados, imensas mangueiras nos protegiam no recreio, as professoras eram belíssimas, austeras, mas carinhosas.

E chegava o 7 de Setembro tão esperado por nós pequenas criaturas, eu era enfermeira, meu irmão caçula bombeiro, a irmã mais linda era fada, o outro soldado, e um quis ser mecânico, e marchávamos tão, tão alegres, que as evoluções daquela marcha, inebriava nossos pais e mães que assistiam aquele espetáculo cívico pueril.

Mais tarde no Colégio de freiras que não marchava, mas nos dava a oportunidade de irmos ao 7 de Setembro, ficar nas arquibancadas vislumbrar aquele desfile grandioso, cheio de aparato militar, a esquadrilha da fumaça fazia evoluções de fumaça multicolorida sobre aqueles homens maravilhosamente lindos dentro de suas impecáveis fardas azuis, verdes, brancas, camufladas, seguidos dos tradicionais colégios, meninos e meninas impecavelmente alinhados nas suas fardas colegiais, nem o calor do asfalto sentiam aos seus pés.

O mundo girou, os ventos vieram e agora o cenário descortinou-se, um ser abjeto transformou ou transformará o 7 de Setembro num campo minado, acredito hoje que na minha pueril idade, toda aquela magia fosse o dito CONTROLE SOCIAL, afinal naquela época existia a tal da Ditadura, que para nós crianças era apenas um nome parecido com dentadura.

Voltando ao ser abjeto que através do controle social chamado "rede social" influencia mentes, que não são ocas, são apenas mentes não pensantes, e promove um levante de futura violência, num país de pacatos cidadãos, tão pacatos que não percebem que são escravizados, por quem os governa, e envergam a coluna lombar, dorsal, cervical, demonstrando que deles são serviçais.

O povo sempre será esmagado por quem deveria e deve trabalhar para mudança de paradigmas das classes menos favorecidas, para a inserção das políticas públicas, para a evolução da ciência, para o fortalecimento da educação, e a permanência do Sistema Unico de Saúde o SUS, e para o enfrentamento de respeito ás diversidades...

Quem vai para o front ?

Enfrentar o general, que nunca foi pra geral, sempre esteve guardado no palácio pago pelo pacato povo, povo esse que irá tombar ao reivindicar seus direitos, cuidado a morte espreita a cada esquina, pode estar o seu leito, o leito de morte, a sua sorte vai ser talvez uma bala de borracha, que no meio da testa racha, e acaba com sua raça, e para as mães que apoiam esse tenebroso evento, cuidado com  a força do vento, que ás vezes vira, e acerta em cheio o seu robusto rebento.

Clamemos por paz, para não ler em uma lápide de bronze !

Aqui jaz um belo e bom rapaz. 

Ou que digam no seu velório !

Descanse em paz... 

A nossa BANDEIRA pertence a TODOS os brasileiros. 

TODOS.

 

terça-feira, 4 de maio de 2021

Da pedra ao pó


Ele é lá da caatinga,
nasceu no roçado.
Num chão que só brota granito,
e de céu ensolarado.
Um dia caminhando no pasto infértil,
levou uma topada, e foi ao chão.
E daí veio sua inspiração !
Vou tirar leite das pedras...
Não esperou o Sol nascer, saiu cedo pela vereda,
passou num riacho seco, ouviu um Tico tico a cantar.
Jesus meu Deus.
E sua labuta começou, um martelo, um ponteiro, 
um alforje cheio de torresmo, um braço forte de sertanejo.
De vez em quando uma pólvora, a pedra imponente,
vira paralelo, lajota, brita, e até  pó.
Aquele tin tin tin pertinente, um som ensurdecedor,    
cessa ao cair do Sol,
Passou num riacho seco, ouviu outra vez um Tico tico a cantar. 
Jesus meu Deus.
Ao luar começa a pensar, vou dormir, descansar, 
amanhã tenho mais pedra pra quebrar.
E no domingo, vai à igreja de pedra, com sua amada cabocla, 
agradecer e orar.

domingo, 23 de agosto de 2020

 É chegada a hora do vaqueiro vestir a couraça, montar no seu cavalo árabe e sair para juntar seu gado rústico, ele sai em cavalgada com seu berrante, que soa um som peculiar.

O gado macilento,com pouca gordura, sem um pingo carne, magro, descarnado, sem viço, sem saúde,muito abatido, um pouco descorado, pálido mesmo, cheio de verminoses,infestado de carrapatos, sem nenhuma profilaxia ou vacinas.
O vaqueiro cavalga naquele lugar inóspito, na aridez da natureza, vegetação de árvores de pequeno porte,vegetação rasteira, e urticantes, um córrego que agoniza, e para abrilhantar um Sol abrasador.
Ao ouvir seu aboio, o gado vem como procela, arrastando-se a duras penas, naquele solo infértil, levantam o pescoço que carrega um famigerado chocalho, que com seu som agoniante, não o permite fugir dali.
Vão juntando-se naquele caminhar cheios de esperanças, de terem uma vida menos sofrida, imaginam que as promessas serão cumpridas, estão todos com caretas de duro couro que somente os permite a olhar reto, e assim caminham sob os gritos e aboio do disfarçado vaqueiro.
Á sua frente o curral, imponente, com morrões de madeira fornida , espaçoso, e vão adentrando um a um, contados por cabeças.
Os bois irão para o abate, as vacas desleitadas, os bezerros de suas mães apartados, e a sequência dessa vida cheias de mazelas, sera perpetuada.
O gado foi enganado pelo falso vaqueiro, que despiu-se de sua fantasia de couro e vestiu-se do mais puro linho, calçou-se de cromo alemão, na taça de cristal Baccarat deglutiu o seu whisky escocês, sentou-se à mesa de mármore italiano e degustou um salmão, tomou um café classificado, sentou-se na varanda para apreciar o seu reinado.
E para possuir tudo isso ele só precisa juntar, de quatro em quatro anos o seu gado no seu CURRAL ELEITORAL.

sábado, 15 de agosto de 2020

 Boas coisas nunca devem ser esquecidas

De novo amanhece o dia naquela casa cheia de gente, o sol abre-se de novo para aquela família, de oito meninos e cinco meninas que tem a vida inteira pela frente.
Lá na cozinha, o cheiro e sabores nos encantam enquanto a mamãe canta, e o papai assobia.
A Veinha da carimã já passava cedinho, o verdureiro trazia coentro, cebolinha , alface, pimentão no lombo do seu burrinho, o leiteiro deixava seis garrafas de vidro cheinhas de leite fresquinho, o padeiro vinha em sua bicicleta trazendo os pães em sua cesta de vime ainda quentinhos, o seu Brasil era um freguês estribado.