sexta-feira, 21 de agosto de 2015


Lápis 

Acordo no meio da noite
e saio perambulando pela casa , tudo é silêncio ,tudo é paz ...
Entro nas alcovas do primogênito e do caçula ,dois irmãos quase iguais e tão diferentes .
Um quarto metódico com tudo arrumado ,outro com tudo revirado ,embolado , gavetas no chão ,cama por fazer ...
E eis que vejo pontas de lápis , que foram manuseados pelos dois , vislumbro os sonhos e anseios desenhados à grafite .
E a noite adentra na escuridão da alma ,
na escuridão de minha densa saudade ,
respiro o gelo da brisa noturna
que adormece as emoções,
e as canções de ninar .
São apenas pedaços esquecidos de lápis , pedaços esquecidos de vida , pedaços de arte , de sorte , de sonhos riscados num branco papel , que o tempo tornou pardo .
E assim são minhas noites , perambulando pelos corredores antes alegres, cheios de vida e de desenhos pueris nas paredes brancas .
Porém os desenhos feitos por esses lápis esquecidos , são agora do Mundo
são eternizados por uma coisa chamada ARTE .
E eu estarei aqui esperando ,orando, esperando, orando ...
Já amanheceu a Lua se escondeu , agora será somente eu e a multidão diurna que me envolve ,mas não me absorve .
Espero por outra noite,
para perambular pela casa ,
onde tudo é silêncio
tudo é paz .

quarta-feira, 1 de julho de 2015



Mundinho meu


Não devo insistir em sair do meu mundinho ,
em sair de perto de mim .
Só me deu aquela saudade apertada ,bem apertada ,
uma saudade quase insana .
Então eu fui , me lancei ao vento e fui , fui alegre e
saltitante , fui tão feliz , tão , tão ... Ah .
Atravessei rios e mares , caminhos negros e esburacados
até me perdi , depois me achei ,mas me perdi .
Meu coração pulsava , fervia , pulsava, fervia , voava ,voava ,
sorria , sorria .
Eu ao ter ver me alegrei .
Mas a recíproca não foi verdadeira ...
Não me avisastes .
O que fazes aqui ?
Odeio surpresas ...
E deu-me um beijo emprestado de Judas .
Desmanchei-me no ar .
Minha alma calou .
O coração parou .
O sorriso cessou .
Descobri que nada sou
Eu nada fui .
Eu nada serei ...
Então me fui .
Voltei vazia .
Meu coração não pulsava, não fervia ,não voava ,não sorria...
Então voltei ao meu mundinho
e voltei pra perto de mim .

terça-feira, 23 de junho de 2015

Panela
E ela levanta-se junto como o Sol
acendia o fogão , e a vida recomeçava do mesmo jeito .
O leite fervendo , o aroma do café espalhando-se pela casa , a manteiga Itacolomy , e muitos , muitos pães , a porcelana que o Rogério presenteou 
cheia de laços de fita cor de rosa .
E a meninada acordava-se com o arrastar das sandálias do papai , ou com o cheiro de seu cubano roliço .
O enorme banheiro congestionava , bem que poderia ser dois , corre-corre ,rebuliço , relógio ...
E ela cozinhando e cantando , " Por que não páras relóóóógio "
E assim foi a minha , a nossa vida , por anos sem fim .
E a panela de arroz , que ao meio dia ficava sequinha , vazia , quase lambida , éramos só treze , treze bocas ,treze cabeças , treze filhos ,cinco filhas oito filhos treze , treze .
Mas o relógio não parou .
O relógio carrilhão não parou .
E a vida veio , a vida foi , a vida não retornou .
O maldito relógio não obedeceu .
Por que não parou relógio infame ?
Ela se foi , ela se foi , ao último som das badaladas do relógio do tempo , e o tempo não parou e nem olhou para trás .
E a panela que um dia foi dela ?
A panela que foi nossa ...
Agora é minha .
E eu vou levantar junto com o Sol .
Vou acender o fogão e vou recomeçar a vida do mesmo jeito .
O leite fervendo , o aroma do café espalhando-se pela casa , a manteiga Itacolomy , e muitos , muitos pães ...
E assim será , assim foi e assim tornará a ser .
Serei ela ,serei eu serei nós .



quinta-feira, 11 de junho de 2015

Grená
Por quais mares mergulho minhas saudades ?
Estou a emergir das profundezas de mim ou submergindo da vastidão
inóspita de minha alma?
E essa abóboda negra que cobre os sonhos meus ?
Serei eu louca ?
Pergunta retórica ...
Um dia eu vou voltar , e vou achar tudo que me foi tirado , e a ira daquele dia irado vou esquecer ...
Não foi eu ,não foi voce ,foi o Mundo. toda culpa é de todo mundo , um mundo sem fundo, imundo mundo .
O céu é tão longe , tão infinitamente distante ,fora do alcance de meus sonhos
dantescos ,
cheios de flores sem espinhos ,
de flores sem cores .
Por quais mares mergulho minhas saudades ?
Eu mergulhei ?
Ou fui empurrada ?
Não importa , pois atravessei a porta ,minha alma transcende e acende minha vontade de ir ...
Ou de vir ?
Levo comigo a Lua .
Posso perambular nas ruas de minha mente torpe .
De minha mente que não diz a verdade .
Os dias passarão , as noites virão , o frio do crepúsculo vai amaciar minha dor , minha dor de cor grená .


domingo, 24 de maio de 2015


Estação da escuridão 

A estação não é das flores .
A estação é dos egos .
A estação é dos indivíduos cegos .
É a estação do pouco caso , da ausência, da coletiva demência ...
A estação dos que não leem dos que sequer escrevem uma linha .
É a estação daqueles que apenas passam , 
não vão, 
não voltam 
só passam .
A estação não é das flores .
A estação é a da escuridão , de nuvens densas e nebulosas , de gente que 
tem medo de ser gente 
tem medo de sorrir 
tem medo de olhar 
tem medo de amar .
E a estação vindoura será de catástrofe ...
O Sol se apagará 
O Mundo sumirá 
A Lua não mais brilhará .
E os outros viventes para onde irão ?
Aqueles que teimam em não sorrir , não olhar ,não amar ...
Sei lá !
Vão pra qualquer inóspito lugar !
E nós que não temos medo de nada ,que sorrimos , que olhamos ,
que amamos , vamos para sempre estar na Estação das Flores .

quinta-feira, 9 de abril de 2015



Castigo
Pra que eu cresci ?
Bem que poderia estar pequenina e quietinha em meu canto .
Perto dela que me dava três surras por dia , eu devia ser mesmo uma peste de menina , com certeza eu era .
Era tão bom ser eu mesma ser criança , mas um dia cresci e daí adoeci . Para sempre ficou tão perto e tão imensamente longe .
Cadê meu irmão primogênito ? E os outros para onde foram ?
E as meninas da casa ? Quem as levou daqui ?
Naquela cova de cimento armado , todos choravam , aliviados ?
Seu império acabou, cessou , agora estamos sós e espalhados pelo Mundo .
Onde estamos nós sem ela ?
O quintal dos sonhos escureceu ,emudeceram aquelas múltiplas vozes , hoje só vozes vorazes .
Não sei mais rezar , faço ora para o tempo passar .
Meus olhos não acreditam mais naquilo que vejo,ai pelejo por ai ...
Meus joelhos já não suportam o peso de minhas saudades , ai finjo felicidades mil ,e não é nem abril .
E o tempo vem ,o tempo vai e o tempo insiste em voltar e sempre o meu coração esta a se enganar ou sempre esta e me esganar .
Lá longe de mim ,encontro a paz , uma paz que aqui jaz e desfaz os dias que ficaram lá atras ...
Ah essa vida vivida sem a avidez de viver .
Por hora não quero ir , nem devo partir , não devo me dividir , e nem me incluir , mas devo sair , fugir dali ou apenas fingir .
Se a morte chegar vai desistir de me levar .
Afinal até ela pode chorar , perder seu ofício .
Acho difícil quase impossível ela me atormentar , vai me deixar estar .
Pois não existe castigo pior que viver aqui dentro de mim .

sábado, 14 de março de 2015


O que sonhas ?
Na vastidão desse mundo árido 
sem cor ,
sem chuva .
Apenas o Sol enfeita essa Terra tua .
Vai , vai pra longe daqui .
Nada te dou , nada te oferecem .
Não tenho nada a te dar .
E eles também nada tem a te oferecer .
Vai que o Mundo é teu .
Leva tuas cores .
Esquece as dores que te causei ...
Vai , lá longe o Mundo é vasto .
Tu serás visto ...
Longe serás também amado ...
A arte faz parte , parte de tua vida .
Mesmo que partas o meu coração
vai e põe tuas cores no Mundo ...
Eu estarei onde voce estiver , voarei tambem na minha imensa imaginação ,
vou estar onde voce estiver ...
Pois me levarás dentro do teu largo coração .